segunda-feira, setembro 26, 2005

Mudanças.

Eu estava perto do Masp quando me dei conta que já havia passado a rua do tal cachorro-quente. Realmente eu não lembrava qual foi a travessa que entramos naquele sábado, quando fui apresentado ao melhor cachorro-quente do mundo. Além de estar de carro, eu estava levemente embriagado e com sono. O único fato que não ficou nebuloso naquela noite foi extraórdinário gosto de câncer daquele cachorro-quente prensado. Lá estava eu novamente atrás daquele desejo. Um desejo que só podia ser comparado aos das mulheres grávidas em noite chuvosa. Eu precisava comer aquele cachorro-quente.
Dei meia volta, decidido que a rua ficava a umas três quadras atrás. Apesar de não encontrar placa, letreiro ou qualquer outro ponto de referência nas minhas rápidas olhadas laterais, eu tinha uma pequena certeza que ficava em uma daquelas ruas que eu havia passado.
Se eu vivesse a muito tempo nessa cidade eu poderia dizer com a boca cheia: "A Avenida Paulista no início da noite fica insuportável". Não sou hipócrita pra fazer um comentário desse tipo. Eu estou morando apenas a seis meses nesse lugar, o que me permitiria desfrutar de pequenas novidades (como andar na paulista, por exemplo). Apesar disso, a minha típica irritabilidade foi ganhando espaço naquele dia. Pessoas estúpidas com suas maletas andando vagarosamente não me permitiam chegar mais rápido ao meu destino suculento. Duas senhoras que estavam na minha frente montadas em sacolas pararam para comprar algumas miçangas dos hippies. Meu sangue subiu. Tentei desviar pela esquerda, mas choquei-me com um punk que tinha mais piercings que o PinHead de Hellraiser. Voltei e fiquei esperando uma brecha, ainda entorpecido com uma mistura de fome e raiva. Foi nesse tempo que ouvi:
- Não acredito! Encontrar você em plena avenida paulista?
A voz não me era estranha, o sotaque também não. Olhei para o lado e lá estava um amigo meu de Aracaju que eu não via a alguns anos.
- Ah.. e aí? Como você está? - Respondi ainda vigiando as duas mulheres escolhendo as miçangas.
- Tô bem e você? Também está perdido nesse caos? Tá morando aqui?
Se ele soubesse a importância da minha missão naquele momento, garanto que não me bombardearia de perguntas; era algum tipo de entrevista, por acaso?
- Estou morando nesse caos sim, aqui pertinho - Apontei o dedo na direção, enquanto conferia que as duas senhoras já estavam pagando as miçangas.
- Ah! Muito bom. Essa é uma região muito boa, eu estou querendo morar por aqui também; se souber de alguma coisa me avise.
- Aviso sim. Passe o seu telefone - As mulheres estavam guardando as miçangas cuidadosamente dentro de uma das milhares de sacolas penduradas em seus dorsos. Pareciam camelos atravessando o deserto do Saara.
Apanhei o papel amassado e enfiei no bolso sem mesmo olhá-lo. Agradeci, apertei a mão do meu amigo e me mandei atrás das duas senhoras que já estavam a alguns metros de distância. Mais do que encontrar a rua do cachorro-quente, eu precisava descarregar a minha raiva naqueles dois camelos estúpidos que me fizeram perder muito tempo.
Sem nenhum planejamento prévio eu apressei os passos e fui ao encontro delas. Faltando menos de dois metros de distância, vi quase que em câmera lenta o tropeço da senhora da esquerda no batente da farmácia. Aquele corpo pesado e cheio de sacolas coloridas tombou para frente como um tronco de baobá sendo desmatado. Não fiquei para ouvir o "bum". Desviei rapidamente e fui ao encontro do meu destino com um pequeno sorriso nos lábios.

2 comentários:

At 12:30 AM, Blogger Tio BOB said...

E tem gente que não acredita em milagres.

 
At 6:14 PM, Blogger Luiz Sousa said...

Sábias palavras de uma sábia pessoa. Muito bom Homem-Ornitorrinco.

 

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