domingo, outubro 23, 2005

Diálogo.

Eu: Ando desistindo de mim...
Ela: Forças do viver e da novidade do pensar? Linhas de fuga, desproporção, abismos de todos os dias... ?
Eu: Isso. Tropeços no vazio, monólogos cansativos... o ar é pesado e a respiração tem sempre preguiça.
Ela: Inferno estranho, que constitui regiões de outro plano infernal e responde a problemas conectáveis.
Eu: Pessoas também estranhas: ânsia de vômito. O céu não nos enxerga e o vento já parou de soprar a bastante tempo.
Ela: Espera infinita que já passou infinitamente, então.
Eu: Sem falar no contato.. que já não é mais ato. Sobra apenas uma sobrevida, uma sob vida... grito: "Sobe vida!"
Ela: São as "levezas" do cotidiano. Pensamentos estranhos do dia a dia: inapreensível, inexplicável, terrível.
Eu: São inesgotáveis e ruminantes. Eles insistem em lubrificar as catracas mentais.
Ela: Contra sensos sem sentidos, taça de veneno de uma filosofia do inferno. Isso requer um empreendimento noturno infinito, o que não permite nenhuma interpretação racional ou emocional. Tem de ser pensado mil vezes para que o absurdo permaneça absurdo, sem ser explicado.
Eu: O que torna a incompreensão perfeitamente compreensível. Compreende-se que é preciso incompreender.
Ela: Plano infernar do fantasiar, atravessado por intersessões e cruzamentos de linhas sem inicio e fim, lotado de pontos de encontro no meio - onde tudo se cria.
Eu: Pontos criadores que contém a matéria invisível do vazio. Somente a partir de um nada algo pode ser gerado. Por isso fico atônito diante do circo colorido e divertido que a retina persegue diariamente.
Ela: Percebidos ao mesmo tempo em que se percebe o vazio, brincando de recompor relações (de velocidade e de lentidão) e de todos os seus afetos. Sendo ou não sendo muito verdadeiro para expressar um caminho excessivamente irreal para ser obstáculo.
Eu: O que nos dá uma falsa sensação de conforto. Como se conhecéssemos todos estes caminhos, mas ao mesmo tempo como se soubéssemos que somos feitos de ilusão. A mesma ilusão que me centrifuga neste exato momento. Preciso ir...
Ela: Adeus.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Arte de Amar (Manuel Bandeira)

A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Perfume barato.

A "concrete jungle" é uma grande panela de pressão. Por pouco o calor daqui ainda não fritou o meu cérebro. Aproveitando, então, a febre psíquica provocada por essa atmosfera morna e ácida, resolvo vaporizar alguns fragmentos recentes.
(...)
Ainda sinto o cheiro de perfume barato espalhado pelo meu corpo. Foram quase 30min de metrô (15 estações longe daqui) para encontrar com ela. Durante a pequena viagem, eu observava como a selva de pedras dava lugar a um planalto de barracos e prédios de 4 andares. A cidade agora mostrava-se por completo. Sua nudez recusava-se a ser varrida para debaixo do tapete.
(...)
O resto da noite passei em um motel tão barato quanto o perfume dela. A TV só funcionava bem no SBT. Assitir a Sílvio Santos em uma hora como essa não era nada agradável. Optamos pelo rádio: "Olha só, tá tocando uma música da sua terra". Eu bem que podia andar com uma peixeira e um chapéu de cangaceiro.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Incenso, MPB e "felicidade reflexiva"

"Alegria" é a mesma coisa que "Felicidade"? Qual seria a diferença? Foi pensando sobre isso que cheguei à hipótese que existem dois tipos de felicidade (não sei se o termo "alegria" caberia aqui, o que nos daria uma pista para uma possível e futura diferenciação):
A primeira, bem mais comum, é a felicidade corporal. Independente da origem, este tipo é sentido fisicamente (como mencionei em um post anterior, uma estranha energia atravessa todo o corpo fazendo com que o riso saia fácil e os braços sobrem). O mais importante na "felicidade corporal" é que a capacidade de refletir diminui bastante. Essa é, na minha opinião, a diferença essencial do primeiro para o segundo e mais raro tipo de felicidade, a "felicidade reflexiva".
Nesta última, não há a necessidade de sair por aí saltitando. É como se a tal energia não transpirasse pelo corpo e sim fosse reaproveitada internamente, numa espécie de efeito homeopático mental. Surge, então, a opção pelo isolamento, pelo intimismo e pela reflexão. É uma felicidade sentida apenas pelos neurônios e por alguns outros tipos de células.
No final das contas percebi que passei distante da diferenciação entre "felicidade" e "alegria". Isso realmente importa?